-Mística Artística-



miércoles, 21 de septiembre de 2016

martes, 6 de septiembre de 2016

¿Qué pájaro querría hacer nido...? - Carolina Esses

¿Qué pájaro querría hacer nido

en medio de la flor del cardo
por más rosadas o azules
que sean sus agujas?
Un pájaro pequeño, pienso
lo suficientemente pequeño
como para no conocer
todavía el dolor.
Jamás vi un pichón posarse
sobre esas flores.
Sin embargo me ocupo de cortar
las que nacen en los cardos de mi jardín.
No es fácil. Hace falta cierto empeño.
Ignorar tu mirada de reprobación.
Como si no entendieras lo importante
que es salvar al hipotético pájaro
de la pena; como si no supieras
que espero un niño
del tamaño de un pájaro
para el comienzo del verano.


Carolina Esses



Mañana se presenta Versiones del paraíso (Colección Pez Náufrago, Ediciones del Dock), libro del que forma parte este poema y otros que me encantan.

Entrada libre y gratuita.





miércoles, 31 de agosto de 2016

Borges en Libro de sueños (Coleridge)


LA PRUEBA

Si un hombre atravesara el Paraíso en un sueño y le dieran una flor como prueba de que había estado ahí, y si al despertar encontrara esa flor en su mano... ¿entonces, qué?

S. T. Coleridge.



lunes, 29 de agosto de 2016

Let be



Let there be love.
Let the beloved be.
Let lovers be.
Let love be.

Let it be.




Construção - Chico Buarque (1971)



Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague